quarta-feira, 17 de maio de 2017

Sobre o sobre

Clóvis contentava-se com pouco, uma simples brisa era fulminante em cada sentimento, desabrochava pedaços da mente desenfreada dele. Contudo, há algum tempo transitava por vias misteriosas em seu interior, perdia horas do dia refletindo sobre o nada.
Começou quando Clóvis sentou sozinho em um banco envelhecido da praça, localizada no centro da cidade como qualquer uma colonizada por portugueses. A brisa leve levantou as folhas secas da figueira e as levou para longe, junto com os sentimentos do ser. Clóvis perdeu as energias naquele momento, o tempo paralisou e o infinito nada retorceu sobre cada osso de seu corpo, cada partícula de estrela evaporou e o sangue congelou nas veias. Como mágica, a coloração do corpo de Clóvis esguichou para o ar em formas de borboletas, gaviões, abelhas e folhas.
Ainda sentado, com o tempo paralisado, Clóvis submergiu na inconsciência, atravessando memórias, revivendo o passado fragmentado, buscando por um detalhe que explicasse a fase atordoada que passava.
As primeiras visões concretas e verídicas foram da cama desarrumada e do teto branco com borrões amarelados, efeito do fumo excessivo, onde Clóvis costumava refletir e analisar cada peça do dia passado. O local de análise era, também, onde os piores pesadelos vinham à tona, desencadeados por uma série de fatores ainda desconhecidos.
Como em um filme, a cena rapidamente é cortada para a sala oval, onde Clóvis e seus conhecidos costumavam aliciar os sentimentos com álcool ou qualquer substância que os retirasse da realidade. Um fragmento enevoado, observou, pois que atualmente nenhum rosto lhe era familiar ou compartilhava aventuras como os desta viagem de autoconhecimento. Clóvis detectou o primeiro abismo aberto, sua conduta social era completamente diferente desta vertigem mental. Satisfeito despediu-se dos colegas antepassados e seguiu em jornada.
O som do piano invadiu sorrateiramente por entre a espinha de Clóvis. A imagem deslocada de uma imensa floresta, colorida por ipês, pés de manga e jaca, emergiu a cada nota tocada pelas cordas musicais. Entre as árvores a luz de uma fogueira tocou suavemente no fundo dos olhos, iluminando as partículas invisíveis ao consciente. Prontamente Clóvis se dispôs a seguir, contudo seu corpo recusava os movimentos, infligindo dor ao invés de descargar adrenalina. Trancafiado na própria mente, Clóvis revisitou o medo. Com toda a beleza natural disposta aos sentidos, era o medo e a dor que lhe causavam sofrimento, não pela própria dor mas pela incapacidade de continuar revolucionando seu interior. Incapaz de prosseguir e detectar a fonte principal do medo, as lágrimas lhe encharcaram o rosto, rolando como cachoeira olhos abaixo.
Cada gota era um pedaço do ser esvaindo, deslocando a física e a ciência por trás de todos os caminhos que a mente de Clóvis era capaz de construir. Porém, uma linha vermelha atou os braços e pernas, sufocou a garganta e abruptamente emergiu Clóvis para as estrelas.
A visão era completamente diferente e a brisa leve balançava os fios de cabelo. Arrumando a franja, Clóvis levantou do banco colorido. Caminhou calmamente para a nuvem mais próxima e saltou.
Com os olhos abertos a praça surgiu perante seu corpo. O tempo lhe pareceu amigável e as folhas voltaram a voar pelos ares.
Clóvis não se sentia Clóvis, renasceu após remover cada obstáculo que lhe prendia, alcançou o patamar interior capaz de inovar o horizonte previamente enevoado pela agonia de viver.
Conformado com a vida, voltou a refletir com sagacidade sobre a vida e as revoluções que ela provoca. Nenhum ambiente se modifica por si, mas através de cada ideia compartilhada e alçada para a prática. Clóvis introduziu, aos pilares que o mantém, a coragem e a esperança de um dia refletir seu interior em outra alma e, desta, repassar para outra e para outra, até atingir cada ser perdido que, assim como ele, vaga pelo mundo buscando uma resposta onde somente há questionamentos.
A jornada de Clóvis é diária e dispõe de tempo e energia, estes infelizmente transformados em produtos por humanos que se autodenominam superiores, incapazes de refletir sentimento, apenas ego.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Entre linhas


Caminhou na corda bamba, vacilou entre a vida e a morte. Segurou as duas linhas e as tocou. Um misto de faíscas brilhou diante dos olhos, balançou as duas linhas. Entre uma e outra continua caminhando, como qualquer ser humano. O caminho entre a vida e a morte é tênue, mas, ao contrário do que muitos pensam, é limitado. A imortalidade existe apenas no mundo das ideias, no mundo real é uma falácia, uma viagem, uma alucinação. Existir para sempre é privilégio apenas para uma ideia, um conceito que mesmo assim pode ser derrubado, existirá apenas para alguns ferrenhos defensores, para outros será desconstruída, remanejada, alterada. Vacilar entre linha da vida e a linha da morte é comum a todos, quando se tocam faz brilhar a consciência de que somos o fim e o início, de nós e do coletivo. Uma faísca é capaz de contaminar outras linhas, de outras pessoas, de outros mundos, de outras ideias. Ela persiste brilhando mesmo após o enterro de seu detentor, criador, destruidor de conceitos. São poucos os imortalizados nas ideias, são poucos os seguidores, porém, são muitos seus críticos inabaláveis, paladinos da moral, balançando suas espadas invisíveis através dos tempos. Mascarados da elite com falsos argumentos, ilusões para o pobre de consciência. As bandeiras pretas tremulam ao vento quando os tempos da coroa se aproximam, quando a riqueza das coisas toma espaço, invadindo a existência. As máscaras avisam que não há identidade quando se trata da liberdade do povo. As linhas da vida e da morte de muitos voltam a se chocar, inquietam a vida, movem a massa popular para o seio da existência. Nós existimos. Nós podemos. Numa terra sem amos, sem propriedade, sem violência. Pão, paz e liberdade deve prevalecer entre as linhas do consciente ser humano, não pereceremos sem antes lutar pelo coletivo.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sobre o fim


A rua de lâmpadas apagadas, assemelha-se as vias do universo. Cercada pela falta de brilho, acompanhada pelos lampejos das estrelas que já morreram. Na história da humanidade temos libertadores, revolucionários, fascistas, ditadores e mais uma infinidade de ideologias compactuadas no dia a dia. Sem sair do lugar nos movemos ao fim. Haverá um término de todos os abolicionistas e escravocratas.
Os livros de história continuam a desenhar nosso passado, tentando em vão prever o futuro, baseando as teorias nos acontecimentos vividos por poucos. Contam a maestria das revoluções e remontam o início do capitalismo opressor, da selvageria humana. Não aquela apresentada pelos índios, selvagens por natureza, plantando e colhendo. Sobrevivendo tranquilamente sem os apelos tecnológicos, aparatos científicos e armamento pesado para proteger-se de seus iguais.
O avanço da humanidade é destrambelhado e caótico, como o universo. Porém, ao contrário das infinitas alternativas apresentadas pelas estrelas, nosso caminhar apresenta somente o término da célula biológica, o encerramento de nossas atividades no planeta. Chegará o dia em que nossos descendentes carregarão o peso do ódio disseminado, do amor contagiante e do cheiro de morte iminente.
Chegará o dia em que não passaremos de um brilho detectado por telescópios, localizados em outras galáxias, em outras vias estelares. Chegará o dia que não passaremos de uma anotação científica, uma explosão, um fim. Chegará o dia em que nossos livros de história não serão nada, nossas memórias não serão nada, ninguém será nada.
A grandeza do universo não nos permite possuir o controle de outrem. Concede-nos apenas viver, limitadamente. Não conquistamos o direito de controlar o tempo. Somos todos prisioneiros do fim, porém, contamos com nossos sentimentos, nossos momentos. Tudo não passa de um momento. Nós não passaremos de poeira universal, mais uma vez.

sábado, 30 de abril de 2016

Sabe essa visão gigantesca daqui?


Ao chegar no cume lhe disse:
  " Sabe essa visão gigantesca daqui? Todo esse espaço aberto, com a luz do sol se esparramando pela mata. Com o vento esbarrando por nossos cabelos, os fazendo enrolar uns nos outros. Esse canto tranquilo dos passarinhos massageando nossos ouvidos. Esta mistura de cores, desde o azul claro do espaço até o verde das árvores serenas lá embaixo. Desta arquitetura terrestre, inserindo lado a lado montanhas, desenhando rostos nas nuvens, tocando nossos sentidos, espalhando milhares de partículas por segundo nos braços dos ventos, carregando trilhares de sentimentos aleatórios. Enfim, deste momento que estamos vivendo.
  Sabe essa visão gigantesca daqui? O sol representa os dias melhores, sempre nos momentos mais difíceis podemos contar um com o outro, trazendo esperança, calor e alegria, despejando iluminação pelo dia sombrio do outro. O vento simplifica o que é nossa conexão, como as correntes trocamos informações sentimentais com tamanha precisão que até o próprio vento inveja. E como se mesmo assim o dia ainda parecer estranho, somos salvos pelas cores especiais despejadas pelos momentos únicos e inalteráveis de nossas vidas. Conectamo-nos.
  Sabe essa visão gigantesca daqui e imagine ela correndo infinitamente para o horizonte, sinta que este é todo meu amor por você. A natureza espelha nossa alma e você faz parte dos dois lados."

<3

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Balanço


  Em um dia desses analisava um parque para crianças. Uma delas entretida com a roda de girar, outra pendurava-se energicamente pelos suportes de ferro, porém a cena mais surpreendente era daquela criança entretida com o balançar padrão do pequeno objeto de madeira, fixado sob correntes de ferro. A pequena, sustentada pelas ações do vento, colocava os pés para trás e logo após, com um impulso violento, jogava o corpo para frente, descendo com velocidade o balanço, raspando nos pedregulhos logo abaixo, como um pêndulo traça seu risco em uma linha de areia. A nostalgia envolvendo aquele momento foi instantânea, como um raio de luz a refletir nas retinas.
  O olhar fixo no horizonte demonstrava a vontade cada vez maior de chegar nas alturas. A hora do retorno do balanço era marcada pela emoção de emitir um pulso mais forte. Separado por momentos o balancear do balanço reflete na vida.
  O ponto inicial de partida começa vagaroso, sendo necessário muito esforço para o ser movimentar-se para frente e para trás, move-se muito pouco pela grande quantidade de energia produzida. Aos poucos enxerga o brilho do horizonte e seus sonhos começam a criar formas. A cada balançada para frente um avanço para as alturas, produzindo vontade e motivação para compreender o horizonte por cima do mundo cinza que o cerca. O perigo mora no balancear para trás, quando seu corpo está inclinado para o chão, o mundo colorido do horizonte desaparece e os medos vem à tona. Medo de cair, medo de não ter força o suficiente para ultrapassar o ponto fixo, medo de não conseguir parar a tempo antes de se esborrachar no chão. O medo ou te paralisa ou te move. Te paralisando automaticamente seu balanço perde velocidade, seus sonhos vão se dissipando e o ponto de partida parece cada vez mais perto. Te movendo faz ultrapassar o ponto de partida atingindo novos rumos no caminho do balanço.
  Quanto mais alto melhor, menos visão do fútil e desnecessário, mais visão do céu e dos astros e estrelas. Ao alcançar o ponto máximo do balanço, aquele pêndulo incansável, surge a decisão derradeira de salto ou continuação do movimento repetitivo. Mais uma vez o medo reaparece, medo do imprevisível, do desconhecido, do salto impreciso, do tombo gigantesco perante a altura alcançada.
  Voltando a mim, reconectei os laços com a realidade e dissipei os pensamentos desconexos da complexidade humana perante um simples objeto.
  Também há, para finalizar, a superação de obstáculos. Você pode realizar através de instrumentos e objetos ao invés de utilizar cabeças humanas para subir nos degraus da sociedade. Pode-se até, às vezes, precisar de um pequeno empurrão para iniciar sua longa, desastrosa, maravilhosa, perdida e reveladora, estrada da vida.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Passa Mal Pictures Apresenta


  As memórias vêm e vão a vida inteira. São formadas de momentos e algumas vezes são inesquecíveis. Formam o caráter do ser humano, se limitam no tempo e no espaço.
  Hoje fui inundado por um mar de imagens e sentimentos, tudo muito delicioso, tudo muito marcante, como se fosse ontem. Minhas visões se alteravam entre acampamentos e pedaladas incansáveis até o parque de exposições.
  O tempo não me fez esquecer o que me trouxe até aqui. Ainda sinto o ar fresco de um acampamento montado no interior de Concórdia. A turma reunida em um processo de iniciação, com uma churrasqueira armada embaixo de muita chuva, logo ao lado da barraca erguida com folhas de coqueiros, encontrados em uma expedição feita através de mato fechado.
  As aventuras se desdobram através de nossas vidas e cada vida seguiu seu rumo, como um rio que se adapta conforme o traçado. Cada um foi para lados diferentes. Cada um seguiu sua jornada.
  Porém, sinto nossos laços fortemente conectados, carrego vocês junto comigo em cada passo. Se perguntarem de onde vim, estamparei um largo sorriso e direi: "Fui, sou e serei um Passa Mal. Minhas raízes estão fincadas o suficiente para saber que isso formou meu modo de vida, meus pensamentos, minhas atitudes. Tenho amigos eternos no coração."
  Digo mais, amo vocês meus camaradas. Os tempos mudaram, mas ainda os vejo saltitando nus para dentro do rio.
  Sinto saudades. Passa Mal para a vida. Bora jogar um taco no parque?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Mágica do impossível



Acordei para sonhar as alegrias da tristeza. Enquanto chorava, sorria de felicidade. Deitei-me e coloquei o corpo em movimento, disparando para todos os lados dentro do quarto abafado. Soltei o cigarro e dei mais uma tragada, desenvolvendo espirais e formas geométricas enquanto soltava o oxigênio preso em meus pulmões. Saltei do sofá e lancei olhares pelo quarto redondo. Navegando pelas paredes caí em um buraco negro. Absorvido pela subida íngreme topei com com um cidadão jogando bola pela cidade. Olhou-me profundamente pelas costas e se lascou de rir enquanto contava uma história sem pé nem cabeça. Sem cabeça fiquei. Carregava meus olhos em uma das mãos enquanto falava comigo mesmo, desnorteado pelo efeito do ópio que subia dos esgotos da capital do interior. Saltando pelas ondas fedorentas senti o leve odor de lírios perfumados, surfando no rio verde esmeralda entrei por becos e túneis sem saída, acabei por ver a luz no fim do túnel. Renasci do ventre de um mosquito, voei centenas de quilômetros para chegar em segundos à dois metros de onde estava. Farejando por sangue comi pequenos milhos jogados por uma velha senhora sentada no banco da praça, meus amigos pombos, já empanturrados, conversavam ao redor da mesa de xadrez, enquanto o garçom fardado servia copos de água, esta doce como o mel e alcoólica de explodir o fígado. Atravessando a travessa me desencantei com a beleza do mar cor de areia. O sol atingia minhas pupilas e a brisa da noite pairava sobre meus cabelos arrumados com certa bagunça. No luar, cheio de calor, os castelos de areia na praia não aguentavam a maré baixa que subia cada vez mais. Nos olhos dos dançarinos de fogo o brilho oculto se mostrava cada vez mais presente, iluminando caminhos escuros sob o mar de pitangueiras. A fogueira já baixava enquanto o vento só aumentava. As rajadas fortes de pequeno impacto lançavam cometas de cauda flamejante para o espaço. As explosões adocicadas das bolhas de sabão causavam espanto nos peixes rastejantes, aumentando cada vez mais a esperança em seus pulmões, estufados com ar marítimo.
Cravado de lembranças, impulsionado por subjetivas pirâmides em falsos alicerces, destoado pelo canto vazio dos poderes. Esbravejando loucura.
A viagem, afinal, não tem fim em cada começo, inicia a cada passo dado para o infinito. Dança eternamente dentro de si o ritmo da vida, infinita e finita. Sorri para o amanhã a cada toque. Deita sozinho e levanta em meio a multidão. Suspira. Desliza. Canta. Boceja. Por fim ama a todos como todos e o nada como todos.